sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Mesmice


O lençol que não mais cheira lavanda,
As fotografias que se descolam do mural,
Um espelho manchado a dedos,
A madeira que chora com o calor.
Bibelôs empoeirados,
O controle remoto preso por fita adesiva,
Tv com uns poucos canais,
DVD arranhado na quinta faixa,
Cd’s de Bossa Nova e MPB,
Músicas com melodias melancólicas e letras de amor e saudade. O relógio parado no tempo,
A gordura respingada no fogão,
Tapete encharcado pela chuva,
Cadeiras fora do lugar e nem mesmo foram usadas.
Um copo sujo de leite,
Pote de doces vazio,
cheirando a cravo e mamão.
Seus livros empilhados,
Um dicionário esquecido,
A busca de palavras que não dizem nada;
O silêncio o descreve,
como o mais eloqüente discurso.
Sou eu, outra alegoria nesse cenário.
Mas o mínimo muda, algo se diferencia...
Mais um grão de poeira,
Mais um fio de cabelo no chão,
Mais uma gota d’água que pinga do chuveiro,
Mais uma miçanga que rola pra debaixo da cama,
Mais uma teia tecida,
Mais uma traça entre as roupas...
Tão nostálgico e dramático...
São coisas que incomodam mas permanecem,
e por mais que haja desordem,
você sabe onde está;
eu sei que isso cansa,
mas é tranqüilo e sonolento,
e perfeito pra ser mudado...